Pontos-chave
- O ambiente das festas juninas, com seus estímulos intensos, pode ser um gatilho para sobrecarga sensorial em pessoas autistas.
- O planejamento antecipado, incluindo histórias sociais e adaptação de vestuário, é essencial para garantir o conforto.
- O uso de abafadores de ruído e a identificação de “pontos de fuga” são estratégias práticas de manejo.
- A Terapia ABA oferece ferramentas valiosas para o ensino de habilidades de autorregulação e adaptação a novos contextos.
- A inclusão exige uma mudança estrutural nas festividades, priorizando a acessibilidade sensorial e o acolhimento.
- O desafio sensorial das festas juninas
- A ciência do preparo: como a Terapia ABA auxilia na antecipação
- Estratégias de campo: o que fazer durante o evento
- Rumo a uma cultura de festas verdadeiramente inclusivas
O desafio sensorial das festas juninas
Junho chega com o cheiro de milho cozido, o brilho das bandeirinhas e o som inconfundível do forró. Para muitos, é o ápice da celebração cultural brasileira. No entanto, como jornalista que acompanha de perto a realidade do autismo, sei que para uma parcela significativa da população, este mês não é sinônimo de euforia, mas de um desafio sensorial colossal. As festas juninas são, por definição, eventos de alta carga sensorial: o estalo seco dos rojões, o volume ensurdecedor dos alto-falantes, o toque incômodo de tecidos típicos de xadrez e a imprevisibilidade de multidões em movimento.
Para uma pessoa neurodivergente, o que parece ser uma “festa animada” pode ser interpretado pelo cérebro como um ambiente hostil e ameaçador. A sobrecarga sensorial não é uma escolha; é uma resposta fisiológica a um excesso de estímulos que o sistema nervoso não consegue processar adequadamente. Quando falamos em meltdowns ou shutdowns, não estamos falando de mau comportamento, mas de um limite que foi ultrapassado. Entender isso é o primeiro passo para que possamos construir uma sociedade que não apenas tolere, mas acolha a diversidade em todos os seus espaços de celebração.
A ciência do preparo: como a Terapia ABA auxilia na antecipação
Um dos pilares fundamentais que observo na Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada) é a importância da previsibilidade. O comportamento humano — autista ou não — tende a ser muito mais estável quando o indivíduo sabe o que esperar. No contexto das festas juninas, isso se traduz em planejar antes de sair de casa. Não se trata de “treinar” a criança ou o adulto para se comportar, mas de fornecer ferramentas para que eles possam navegar pelo mundo com menos ansiedade.
O uso de histórias sociais é uma técnica valiosa. Ao descrever, com fotos ou desenhos, o que acontecerá na festa — desde a chegada, passando pelas barracas, até o momento de ir embora —, reduzimos o medo do desconhecido. Além disso, a adaptação do vestuário é um ponto crucial que muitos ignoram. A cultura exige o traje caipira, mas se a textura da palha, o corte rígido do tecido ou o excesso de adereços causam dor física, o prazer da festa é anulado. A Terapia ABA nos ensina a observar os antecedentes: se o desconforto sensorial é um antecedente para uma crise, por que não adaptar a vestimenta? Usar uma camiseta confortável com um lenço xadrez, ou customizar uma peça favorita, é uma forma de honrar a tradição sem negligenciar a necessidade sensorial do indivíduo.
Ferramentas de proteção sensorial
Os abafadores de ruído, frequentemente vistos como “acessórios” por quem não entende a neurodivergência, são, na verdade, equipamentos de proteção individual. Eles não isolam a pessoa do mundo, mas permitem que ela controle a entrada de estímulos auditivos. Em um ambiente de São João, onde fogos de artifício podem soar como tiros para quem tem hipersensibilidade auditiva, o abafador é o que separa a permanência na festa de uma crise descontrolada.
Estratégias de campo: o que fazer durante o evento
Ao chegar ao local, a primeira atitude de um cuidador consciente deve ser o mapeamento. Identificar um “ponto de fuga” não é um sinal de derrota, mas uma estratégia de sucesso. Pode ser um canto mais silencioso, um carro estacionado próximo ou uma área externa menos movimentada. Saber que existe um lugar seguro para onde se pode ir caso a saturação chegue é, por si só, um fator que diminui a ansiedade.
A flexibilidade também é uma competência essencial. Talvez a família planeje ficar duas horas, mas a criança demonstre sinais de exaustão após vinte minutos. O sucesso não deve ser medido pelo tempo de permanência, mas pela qualidade da experiência. Se a pessoa precisa se afastar da quadrilha para brincar com seu stim toy ou observar o carrinho de pipoca de longe, isso deve ser respeitado. O foco deve ser sempre a autorregulação. Se a crise ocorrer, a regra de ouro é a calma: reduza os estímulos, não julgue e ofereça suporte. O julgamento externo, infelizmente, ainda é um problema, mas o papel da família é ser o escudo e o porto seguro naquele momento de vulnerabilidade.
Rumo a uma cultura de festas verdadeiramente inclusivas
Não podemos carregar o peso da inclusão apenas nas costas das famílias. A verdadeira mudança acontece quando organizadores de eventos, escolas e clubes entendem que a acessibilidade é um direito. As “festas juninas inclusivas” estão ganhando força e são um exemplo de como a sociedade pode se adaptar. Reduzir o volume do som, eliminar o uso de rojões barulhentos e criar espaços de descompressão são medidas simples que alteram drasticamente a experiência de uma pessoa autista.
A inclusão não é sobre criar festas “separadas” para autistas, mas sobre tornar o ambiente comum acessível a todos. Quando um evento retira os fogos de artifício, ele não está apenas beneficiando pessoas no espectro; está beneficiando idosos, animais de estimação e qualquer pessoa que prefira um ambiente menos agressivo. É uma celebração da empatia.
Como sociedade, precisamos parar de romantizar a “bagunça” das festas populares se essa bagunça exclui, fere ou silencia. A tradição é viva, e ela deve evoluir. A cultura popular brasileira é rica e diversa, e não há nada mais brasileiro do que a capacidade de abraçar a todos. Que os festejos deste ano sejam marcados pelo respeito, pelo planejamento e, acima de tudo, por um olhar atento que reconhece que, no espectro do autismo, o que mais importa é o acolhimento. Ao aplicarmos os princípios de previsibilidade e respeito ao tempo individual — conceitos que a Terapia ABA defende com maestria —, transformamos uma festa de ruído em uma festa de memórias felizes e inclusivas para todos.
Lembre-se: o objetivo final de qualquer celebração é o bem-estar coletivo. Se o seu filho, aluno ou amigo autista se sente bem, seguro e incluído, a festa junina terá cumprido o seu papel mais importante: o de unir as pessoas, independentemente de como elas processam o mundo ao seu redor.
