Pontos-chave

  • O valor econômico do cuidado informal nos EUA atingiu a marca histórica de US$ 1,01 trilhão, superando todo o orçamento do Medicaid.
  • Cerca de 59 milhões de cuidadores dedicam 49,5 bilhões de horas anuais ao suporte de familiares com deficiências e condições médicas complexas.
  • A sobrecarga emocional e financeira recai sobre famílias que, muitas vezes, operam sem qualquer rede de apoio estatal ou remuneração.
  • O autismo e outras condições neurodivergentes exigem um nível de cuidado que frequentemente se estende por toda a vida adulta, demandando terapias como a ABA e suporte especializado contínuo.
  • A AARP 🛒 defende políticas públicas urgentes, incluindo licenças remuneradas e créditos fiscais, para evitar o colapso do sistema de cuidado.

O trilhão invisível: A economia que sustenta o autismo e a deficiência

Existe uma economia paralela, vasta e silenciosa, que mantém a sociedade americana — e, por extensão, grande parte do mundo ocidental — funcionando. Não se trata de Wall Street, de startups de tecnologia ou de grandes conglomerados industriais. Refiro-me ao trabalho invisível de 59 milhões de cidadãos que, diariamente, abdicam de suas carreiras, de sua saúde mental e de sua estabilidade financeira para cuidar de entes queridos com deficiências e condições médicas complexas. Um relatório recente da AARP trouxe à luz um dado que deveria causar um terremoto político: o valor desse cuidado não remunerado atingiu a cifra astronômica de US$ 1,01 trilhão.

Para colocar em perspectiva, esse montante supera o gasto total dos governos federal, estaduais e locais com o Medicaid em 2024. Estamos falando de um pilar de sustentação que, se fosse descontinuado por um único dia, levaria o sistema de saúde ao colapso absoluto. É um sistema que depende, fundamentalmente, do amor, da resiliência e, tragicamente, do sacrifício pessoal de mães, pais, irmãos e amigos.

O custo humano por trás dos números

Por trás de cada bilhão de horas contabilizadas neste relatório, há rostos, histórias e exaustão. Como jornalista que acompanha de perto a comunidade do autismo, vejo diariamente o que o Dr. Myechia Minter-Jordan, CEO da AARP, descreveu como um “pedágio emocional e financeiro”. Não se trata apenas de “cuidar”; trata-se de gerenciar uma logística complexa que envolve administração de medicamentos, coordenação de terapias, transporte e, em muitos casos, procedimentos médicos invasivos que, em um ambiente hospitalar, seriam realizados por profissionais de enfermagem altamente treinados.

O que torna esses dados ainda mais alarmantes é o crescimento exponencial. Desde 2006, o valor desse cuidado triplicou. Isso não ocorre apenas porque há mais pessoas precisando de suporte, mas porque o custo da mão de obra qualificada no mercado aumentou. Quando uma família assume esse papel, ela está, na prática, “doando” essa mão de obra ao Estado. É uma forma de subsídio forçado que as famílias pagam com o próprio bem-estar.

A realidade das famílias no espectro: Entre a Terapia ABA e a sobrevivência

Quando falamos de autismo, a complexidade do cuidado atinge um patamar diferenciado. O suporte a uma criança ou adulto autista vai muito além da assistência física básica. Existe a necessidade constante de mediação social, suporte comportamental e o acesso a terapias fundamentais, como a Terapia ABA (Análise do Comportamento Aplicada). A Terapia ABA é frequentemente o divisor de águas entre a autonomia e a dependência total, mas sua implementação exige um esforço coordenado que consome horas preciosas dos cuidadores.

Imagine a rotina de uma mãe como Emily Brooke Holth, que cuida de seu filho adulto, Ry, que necessita de alimentação por sonda, enquanto também apoia sua filha gêmea, Kaia — ambos autistas e imunocomprometidos. O nível de vigilância exigido é de 24 horas por dia. Para essas famílias, a Terapia ABA não é apenas uma intervenção clínica; é parte de um ecossistema de sobrevivência. No entanto, o sistema muitas vezes falha em reconhecer que, para que o autista prospere, o cuidador precisa de suporte. Quando o cuidador entra em burnout, todo o progresso terapêutico, conquistado com tanto esforço via ABA, corre o risco de ser perdido.

O autismo não é uma condição que “passa”. Ele exige uma reconfiguração da vida familiar que se estende pela vida adulta. A falta de programas de apoio para adultos autistas é uma lacuna que empurra, mais uma vez, o ônus para as famílias. Elas se tornam terapeutas, enfermeiras, advogadas e gestoras de casos, tudo isso enquanto tentam manter algum resquício de vida pessoal.

O colapso silencioso e a necessidade de políticas públicas

A pergunta que fica é: até quando esse sistema pode se sustentar? A AARP está pressionando por mudanças estruturais, como a implementação de licenças remuneradas para cuidadores, aumento de serviços de respiro (o famoso “respite care”) e créditos fiscais que reconheçam o valor econômico desse trabalho. Mas a mudança precisa ir além do financeiro.

Precisamos de uma mudança cultural. O cuidado, historicamente relegado ao ambiente doméstico e, muitas vezes, ao feminino, precisa ser visto como uma infraestrutura pública. Assim como investimos em estradas e pontes, precisamos investir na infraestrutura de cuidado. Sem isso, estamos condenando milhões de famílias a uma pobreza evitável e a um isolamento social que, paradoxalmente, as impede de oferecer o melhor suporte aos seus entes queridos.

A Terapia ABA, por exemplo, deveria ser integrada a um sistema de suporte ao cuidador. Não faz sentido investir em intervenções comportamentais se o ambiente familiar está sob estresse financeiro e físico insuportável. O sucesso do autista no espectro está intrinsecamente ligado à estabilidade de quem cuida dele. Ignorar isso é ignorar a própria lógica do tratamento.

Conclusão: Um despertar necessário para a sociedade

Os números apresentados pelo relatório da AARP são um chamado à realidade. Um trilhão de dólares não é apenas uma estatística; é o valor da dedicação humana que o mercado não sabe precificar e que o governo prefere ignorar. Como sociedade, estamos vivendo de um “empréstimo” que as famílias estão nos concedendo. E, como todo empréstimo, ele cobra juros — juros pagos em saúde mental, em aposentadorias sacrificadas e em sonhos adiados.

Precisamos que este relatório seja o gatilho para uma reforma profunda. O suporte ao autismo, o acesso universal à Terapia ABA e a valorização do cuidador familiar devem ser pautas centrais de qualquer agenda política séria. Se quisermos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, precisamos parar de tratar o cuidado como um problema privado e passar a tratá-lo como um direito humano coletivo. A conta chegou, e ela é de um trilhão de dólares. A pergunta é: quem vai pagá-la? Se continuarmos como estamos, a resposta será, como sempre, as famílias que já deram tudo o que tinham.

É hora de reconhecer, apoiar e, acima de tudo, aliviar o peso daqueles que carregam o mundo nas costas. O silêncio sobre o custo do cuidado não é mais uma opção.